Educação escola indígena no Brasil: Da escola para índios às escolas indígenas




Artigo: EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL: DA ESCOLA PARA ÍNDIOS ÀS ESCOLAS INDÍGENAS

Autores: Maria Aparecida Bergamasch e Rosa Helena Dias da Silva

Ano de publicação do artigo: 2007

Local de publicação: Ágora. Santa Cruz do Sul. Vol. 13, n.1 (jan./jun. 2007), p. 124-150


O presente artigo inicia informando a coleta de dados do censo escolar de 2005, onde mostra a existência de 2.324 escolas indígenas trabalhando nas terras brasileiras, na qual atendem a 164 mil estudantes e trabalhos aproximadamente 9.100 professores e 88% deles são indígenas. Os dados apresentados são para confirmar a existência das escolas indígenas com intenção de tornar visível o sistema educacional brasileiro acerca da temática, a denominação genérica índios relega essa temática para uma situação de invisibilidade e de “entulhamento”, escondendo as diferenças que constituem cada etnia, tal invisibilidade que não evidencia os significados dos modos de vida dos indígenas e de seus protagonismos, faz persistir no meio escolar educacional a imagem de uma escola indígena com formato da catequese colonial.

A escola para os índios é a mais antiga do Brasil e as primeiras iniciativas escolares são do período colonial, onde os europeus im colocados aos nativos um aparato educativo de acordo com os padrões ocidentais, dessa forma os processos educativos próprios da tradição de cada povo indígena foram rechaçados, ou seja, a verdadeira história do povo indígena foi banida do contexto educacional e fez-se valer somente a dos europeus.

A marca profunda da escolarização confessional entre os povos indígenas perdura e é visível até os dias atuais, a fundamentação jurídica deste novo momento da educação escolar indígena no Brasil está registrada na Constituição de 1988, que reconhece o direito dos indígenas há uma educação escolar diferenciada que respeitam os processos educacionais de cada povo, e este direito é confirmado nas leis da educação e também fica explícito o direito ao reconhecimento e proteção de seus bens culturais, incluindo uma educação onde seja respeitada suas histórias, culturas e regras.

No decorrer do texto é possível notar que os indígenas sempre priorizaram a educação e suas tradições, por isso reivindicaram e reivindicam pelos seus direitos em torno dela, de modo, que venham se manter suas próprias formas de educação.

Diante disso, o autor afirma que a força das raízes do povo Guarani se faz presente na escola de maneira que faz essa escola se indianizar por meio de suas trajetórias, adquirindo um meio próprio de se viver a escola, sem segregação de faixa etária. Cada criança vivencia seus modos de aprender sem a presença constante do professor.

Ressalta-se que ocorre uma descontinuidade com relação ao tempo, no que diz respeito às relações didáticas, visto que os professores não exercem uma pressão sobre o aluno para realização de atividades, pois é tudo no ritmo e tempo da criança. Muitas aldeias não apresentam prédio escolar, ou seja, as aulas acontecem em diversos espaços escolares, seja no galpão, casa do professor e o mais interessante na rua . O autor enfatiza a questão do currículo escolar, muito em voga atualmente, indagações como: o que, como e quando ensinado na escola, são questões pontuais que permeiam o dia a dia escolar dos professores Guarani que resolvem essas situações a seus modos na escola, com a vivência das práticas educativas do mundo ocidental e também com a prática e vivência do povo Karaí,

Dando continuidades, o autor comenta sobre o jeito Mura de educar na vida e na escola, é um povo que habita a bacia do rio Madeira, no estado do Amazonas, com suas características peculiares de educar entre elas: a não segmentação, a busca por uma abordagem integrada, a parceria escola/comunidade e também a escola como uma expressão de vida. 

Diante disso, seus modos de vida característicos são refletidos na prática educativa dos professores, visto que a escola e comunidades andam juntas, onde o papel que o professor exerce é muito forte na aldeia. A escola Mura prioriza a cultura, fazendo articulação dos conteúdos e os educadores Mura dão ênfase à interdisciplinaridade, fator muito importante para uma aprendizagem significativa.

O autor discorda sobre os objetivos do povo Mura, que sobressaem o conhecimento, pois são animados, estão em constante movimento, de acordo com as prioridades de seu povo Mura.

A escola é bastante participativa, a comunidade também emite suas opiniões, esperançosa para definir os rumores e decisões que a escola toma. Outro fator importante diz respeito à avaliação, o qual, de acordo com os discentes Mura ocorre de maneira contínua e processual, seu planejamento educacional se dá de maneira coletiva, buscando a participação do corpo docente, comunidade escolar e demais segmentos da comunidade Mura.

O autor enfatiza que no prosseguimento das pesquisas realizadas, a escola Mura, tanto a ideal quanto a almejada pelo povo Mura, percebe-se que vai se moldando um perfil de educador que defende e luta pelo seu povo e pelas suas causas.

É importante para o povo Mura proteger sua identidade étnica, sua cultura, para isso, desenvolvendo atividades que recuperem a história de seus filhos, levando em consideração os saberes que podem aprender com os não índios, para isso, os professores , apresenta uma organização docente que busca o planejamento e a formação do professor. Os educadores Mura, realizaram estudos do meio, por intermediário de garantia e pesquisas, o qual buscam a investigação como pontos norteadores para suas aulas, propiciando momentos para que seus educandos vivenciem a realidade e assim tenham acesso a um melhor processo de aprendizagem.

Para o autor, os Mura, dão ênfase, nas experiência e vivências conjuntas, valorizando o compromisso social e também de uma prática pedagógica eficaz e necessária para a educação dos Mura, características que de acordo com o autor afloram nos vários depoimentos colhidos junto ao povo Mura. No que se relaciona aos professores, em suas vivências temporárias do fazer pedagógico em sala de aula, há um respeito muito grande pela criança e por sua sensibilidade, é levado em consideração nesse fazer pedagógico a essa criança curiosidade.

Dessa maneira, o autor enfatiza que a oralidade é necessária para a educação indígena, diante disso, no decorrer de suas pesquisas realizadas, tolerada-se que a oralidade foi perpetuada como uma forma de expressão e comunicação nas suas vivências aprendidas. Na concepção da parede, os monitores adquiridos fazem parte de um projeto que transpõe a educação, necessitando fazer parte de questões concernentes à proteção de terras indígenas.

Portanto, o autor finaliza concluindo que diante do contexto de invasão cultural a que os povos Guarani e Mura foram expostos, ocorre uma resistência desses povos, em conjunto com a escola que foi inserida nesse contexto como forma de luta e resistência à eles.

REFERÊNCIAS:


BERGAMASCHI, Maria Aparecida; SILVA, Rosa Helena. Educação escolar indígena no Brasil: da escola para índios às escolas indígenas. Ágora , v. 13, n. 1, pág. 124-150, 2007. Disponível em: < https://doi.org/10.17058/agora.v13i1.113 >


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